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  • Sônia Apolinário

Paulão 7 Cordas comanda o samba de musical sobre a Praça 11

No ambiente do autêntico samba carioca, raro encontrar um artista com quem Paulo Roberto Pereira de Araújo não tenha tocado. Para quem não está ligando o nome ao instrumento, ele é o Paulão Sete Cordas. Há 30 anos, fiel escudeiro de Zeca Pagodinho, o arranjador, produtor musical e violonista foi convidado para um desafio inédito na sua carreira, iniciada aos 17 anos: ser o diretor musical de uma peça de teatro musical. Em "Negros e Judeus na Praça Onze", a história da jornalista e escritora Beatriz Coelho Silva é costurada por 18 sambas. Todos cantam o bairro que já foi o mais cosmopolita do Rio de Janeiro e praticamente desapareceu para dar passagem ao “progresso”. A peça entra em cartaz em abril, no Teatro Vannucci, na Gávea, Zona Sul do Rio.

“O convite me fascinou, em primeiro lugar, por conta do repertório. Vamos tocar e cantar os sambas da forma mais próxima do original, com os arranjos característicos da época. A maneira de tocar o samba mudou. Não se toca mais como naquele tempo”, conta Paulão que divide a direção musical da peça com o músico e professor de História Ivan Machado.

Ele fala sobre essa mudança não de forma saudosista, mas como constatação, até porque, os próprios instrumentos mudaram. Por exemplo, tambor, tamborim e pandeiro nem sempre tiveram tarraxas para serem afinados. Paulão explica que, nos antigamente, os músicos saiam de casa com folhas de jornal no bolso. Antes de tocar, ateavam fogo no papel. Com o calor, aqueciam a pele dos instrumentos para esticá-la. E a afinação estava feita. Foi somente na década de 40 que apareceram os instrumentos com tarraxas para afinação e o surdo foi o primeiro a receber a novidade.

No musical, que tem direção geral de Renato Penco, estarão em cena sambas de Herivelto Martins, Assis Valente, Pixinguinha e Noel Rosa, entre outros. A Praça Onze, cujo nome original era Praça 11 de Junho, existiu por mais de 150 anos até a década de 40. Era naquela região que os imigrantes que chegavam, na então Capital Federal do Brasil, se instalavam. Os negros, em geral oriundos da Bahia, e judeus, de várias procedências, eram maioria.

Quando o bairro foi quase todo demolido, em 1942, para dar passagem à Avenida Presidente Vargas, o samba e o choro se firmavam comercialmente e o carnaval tomava sua face atual, com a criação das escolas de samba. Hoje, o Sambódromo está erguido no pouco que sobrou do bairro original.

Para simplificar a produção da peça, Paulão vai gravar base e introduções e os atores cantarão ao vivo. Os instrumentos “convocados” serão flauta, cavaquinho, violão de 7 cordas, violão de 6 cordas e percussão.

Na opinião do músico, a partir da década de 80, houve um ressurgimento do samba, no Rio de Janeiro, graças ao trabalho que vinha sendo feito, principalmente, pelas cantoras Clara Nunes e Beth Carvalho, o bloco Cacique de Ramos e o grupo Fundo de Quintal. Para ele, as várias rodas de samba espalhadas atualmente por toda a cidade mostram que o samba vai muito bem obrigado, apesar de não ser tão tocado assim nas rádios.

“Quem tem por volta de 30 anos dificilmente escutou Paulinho da Viola nas rádios. A música é dinâmica. É preciso ouvi-la ou perde-se a referência. A vantagem de hoje é que há muita informação disponível para quem se interessa e quiser procurar”, observa Paulão que, toda terça-feira, desfila seu repertório de sambas tradicionais no Trapiche Gamboa, na Zona Portuária.

Com 58 anos, sua trajetória musical praticamente se confunde com a história do samba contemporâneo carioca. Nascido no Estácio e criado no Jacarezinho, Zona Norte do Rio, ele cresceu ouvindo o avô João tocar clarineta e ensaiando uma banda, em casa. Por causa da banda, o menino Paulo quis tocar trombone. Não deu muito certo. Aos 12, ele experimentou o cavaquinho e, aos 15, descobriu o violão.

Adolescente, passou a frequentar rodas de choro. Em um grupo, ao substituir o “titular” do violão de 7 cordas, se encantou definitivamente pelo instrumento. Ele tentou conciliar a música com o emprego de contínuo em um escritório de contabilidade, mas o violão falou mais alto – para contrariedade do pai.

Aos 17 anos, Paulão se demitiu do escritório, foi morar sozinho e estreou profissionalmente acompanhando ninguém menos do que Nelson Cavaquinho. Também tocou com Zé Keti e conviveu com baluartes das grandes escolas de samba. Tornou-se o produtor dos trabalhos da Velha Guarda da Mangueira e da Portela (juntos, como em "Tudo Azul", ou separados), bem como de bambas como Wilson Moreira, Nei Lopes, Roberto Silva e Xangô da Mangueira, entre outros.

“Dei muita sorte porque tive a oportunidade de tocar com muita gente que sabia das coisas”, afirma ele que, antes de chegar até Nelson Cavaquinho, tocou muita seresta, no Clube Nogueira, em Piedade, no subúrbio carioca.

Agora é seu filho do meio quem segue o caminho da música. Ramon, de 29 anos, é violonista. Seu primeiro instrumento, porém, foi uma guitarra, que o menino pediu de presente ao pai aos 8 anos.

O filho mais velho, João Pedro, de 32 anos, toca cavaquinho, mas preferiu seguir a profissão de biólogo. Já a caçula, Maria Luisa, de 5 anos, adora acompanhar o pai nas rodas de samba e canta “de cabeça” sambas inteiros.

Quando fala sobre os filhos, o músico abre um enorme sorriso, saca o telefone celular e mostra várias fotos e vídeos feitos em família. O sorriso se mantém generoso quando o assunto é o amigo Zeca Pagodinho. Paulão é o seu diretor musical:

“É muito fácil trabalhar com ele. Zeca é um cara muito humilde. Nesses anos todos, nunca o vi pisar na bola. Ele é bem parceiro. Ele manda resolver as coisas e depois não reclama de nada, acata. Zeca só aparece no estúdio na hora de cantar porque sabe que vai estar tudo certo. Isso passa uma grande confiança. Tenho que transpor para a estrada, para o palco, o que ele fez no estúdio para o CD. E tem faixas onde tocam até 40 pessoas. Atualmente, o CD e a estrada estão bem parecidos. Todos identificam pela introdução quando é uma música do Zeca”.

Paulão terminou há pouco tempo de fazer com a cantora Dorina um CD somente com músicas de Aldir Blanc, o "Samba de Aldir e Ouvir". Já entrou em estúdio outra vez para produzir o novo trabalho do cantor Julio Estrela. Além disso, mantém, firme e forte, sua roda de samba que se apresenta sempre no terceiro domingo do mês, na praça, na Glória, Zona Sul carioca. E entre uma coisa e outra, reforça com seu inseparável violão de 7 cordas o “time” de amigos, em shows por todo Brasil e no exterior.

“Sou louco por violão, choro e samba”, diz ele, que tem 20 violões na casa onde mora, em Santa Teresa, e fica agoniado quando os instrumentos ficam mais tempo “em exibição” do que em uso. “Violão gosta de ser tocado. Quando ele é tocado, envelhece melhor”.

Praça Onze, verbete

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