No Rio de Janeiro, moeda virtual já compra cerveja no mundo real

O que acha da ideia de usar dinheiro virtual para comprar cerveja no mundo real?

Pois isso já pode ser feito no Rio de Janeiro. A cervejaria BierTeria realizou, semana passada, sua primeira transação comercial paga com Bitcoins e não com Reais. Dalmo Marcolino, sócio da cervejaria junto com sua esposa, a sommelier Marilia Loiola, conta ter ficado satisfeito com a experiência.

 

Ele vendeu uma unidade de cada uma das suas três cervejas. Total da compra em Reais: R$ 65,00. Total da compra em Bitcoins: BTC 0,01583025. Uma semana depois, como ele ainda não tinha feito o resgate do dinheiro, o valor em Reais já estava em R$ 84,58. O comprador foi Guilherme Sá, um colega de um curso sobre Blockchain, o livro-registro desse tipo de transação.

 

E pensar que até o ano passado, tudo isso seria “grego” para Marcolino. Executivo de uma multinacional de tecnologia, ele tinha a produção de cerveja caseira apenas como um hobby. Porém, a empresa fez cortes na equipe e ele perdeu o emprego. O hobby, então, virou “Plano A”. Marcolino conta que sua primeira providência foi estudar mais aprofundadamente a fabricação de cerveja e rumou para os Estados Unidos. Em São Francisco, foi apresentado ao Bitcoin.

 

“Eu já tinha ouvido falar, mas, para mim, era uma moeda apenas para games. Aos poucos, fui vendo como as coisas relacionadas ao Bitcoin estão ficando grandes. É uma moeda virtual autorregulada. Não existe um Banco Central para o Bitcoin. A moeda é validada em rede, na forma de consenso. É muita loucura”, comenta Marcolino, à esquerda, na foto ao lado de Guilherme Sá.

 

Na verdade, tudo relacionado ao Bitcoin parece ficção científica. A começar pela sua criação: ninguém sabe quem criou. O que se sabe é que, em 2009, um programador (ou um grupo de programadores) usou o pseudônimo Satoshi Nakamoto e lançou o conceito da criptomoeda distribuida no  The Cryptography Mailing, a “bíblia” do assunto. Lançou não apenas o conceito, mas todo o seu protocolo, inclusive o momento em que a moeda deixaria de ser “emitida”: quando atingisse 21 milhões de Bitcoins. Já está em 16,5 milhões. Como tudo relacionado ao Bitcoin é “estranho”, essa moeda não vai sumir tão cedo, mesmo quando deixar de ser “emitida”.

 

Voltando ao mundo real, Marcolino resolveu experimentar a novidade e, como diz, “começou pelo mais simples”: criou sua carteira de Bitcoin.

 

Explorador desse novo sistema monetário, o catarinense Taivan Muller explica que essa carteira é, na verdade, um aplicativo baixado no telefone celular sem necessidade de inserir dados pessoais. A segurança fica “depositada” em uma chave privada, vinculada à carteira baixada no celular. Com a carteira, é possível efetuar compra e venda e fazer trocas nas exchanges. Atualmente, 1 Bitcoin vale R$ 5,5 mil.

 

“O Rio de Janeiro está iniciando no uso de Bitcoin, que é uma moeda. Como toda moeda, é uma abstração. A diferença é que não tem um controle central. Ela tem uma regra de emissão que não pode ser alterada. Usar o Bitcoin significa abrir possibilidade de realizar negócios. No caso da BierTeria, vai poder importar insumos com Bitcoin e vender sua cerveja para qualquer lugar do mundo pois não há barreira territorial para essa moeda”, informa Muller, de 28 anos, que está trabalhando com duas iniciativas que atuam na área, Prospera e a Estação Experimental Glocal para Ciências Abertas e Tecnologias Sociais P2P – E2GLATS.

 

Lembra que Marcolino fez sua primeira venda com Bitcoin em um curso sobre Blockchain? Muller explica do que se trata:

 

O Blockchain é um livro-registro distribuído. Sua FORMA (arquitetura e processos) permite a circulação de valor por entre as pessoas, de forma transparente, segura e sem nenhum intermediário central. Desta forma, é possível adotar esta incrível ferramenta para sustentação do fluxo de valor em ambientes distribuídos, substituindo o modo de sustentação centralizado, característico nas organizações do modelo Industrial.
O Blockchain também gera enorme impacto na redução dos custos de transações, potencializando a interação e a coordenação do trabalho de forma distribuída.

 

Atualmente, existem 700 criptomoedas inspiradas no Bitcoin. Criptomoeda? Muller explica:


As Criptomoedas, como o Bitcoin, são moedas digitais, com controle distribuído, relacionado ao uso do Blockchain. São produzidas por um sistema

 

 próprio, com uma razão definida na criação do sistema e disponível publicamente, se diferenciando, assim, das moedas fiduciárias, que tem controle centralizado. A Criptomoeda possui capacidades únicas, que a diferenciam das moedas tradicionais em circulação:


- Não pode ser duplicada; 


- Pode ser enviada a qualquer lugar, sem custos de transação;

 


- Transações são públicas, mas a privacidade de seu titular é protegida por criptografia;


- Permite a verificação permanente de sua propriedade; 


- Identificação da carteira que a custodia, mantendo a privacidade de seu titular;


- Execução de Smart Contracts; 


- Distribuição de recursos recebidos para uma quantidade de criptomoeda custodiada em uma carteira digital.

 

Se não tem um “Banco Central”, quem emite Bitcoins? Os “mineradores”, em tese, qualquer pessoa. Na prática, programadores detentores de computadores extremamente potentes. Não se conhece a identidade dos mineradores, mas se sabe que metade deles está na China, país onde a energia é barata, já que esses supercomputadores nunca desligam. Muller explica, mais uma vez:

 

“A cada dez minutos, os mineradores pegam as transações e colocam no livro registro, o Blockchain. O Primeiro minerador a colocar as transações no Blockchain, recebe uma recompensa em Bitcoin, é nesse processo que o Bitcoin nasce, isso chama-se Prova-de-Trabalho. Eles monitoram o trabalho que é todo feito por um software automaticamente e que qualquer pessoa pode baixar. Para fechar a transação e ganhar é uma verdadeira competição entre mineradores do mundo inteiro. O minerador legitima as transações e lucram com esse trabalho”.

 

Sim, esse processo já estava estabelecido no protocolo criado por Nakamoto. E vai acabar quando for atingida a marca dos 21 milhões de Bitcoins. Quando chegar a esse patamar, o que acontece com quem tem essa criptomoeda? Vai continuar a fazer suas transações por muito tempo porque o Bitcoin é fracionada em 8 casas decimais, ou seja, pode ser fracionada em trilhões de vezes.

 

Atualmente, essa criptomoeda é bastante usada no Japão, onde foi legalizada há dois meses. Também é comum seu uso na China, Dubai e Alemanha, onde é possível pagar conta de luz em Bitcoin. Na verdade, isso também é possível no Brasil. Basta entrar no site https://www.paguecombitcoin.com

 

Em São Paulo, funciona um caixa eletrônico de Bitcoins na Faculdade de Informática e Administração Paulista (FIAP), no Campus Paulista. Em Minas Gerais existe outro caixa eletrônico nacional de Bitcoins. Na Europa e Estados Unidos, existem cerca de mil dessas máquinas. Academias de ginástica paulistas também estão aderindo à criptomoeda. Em algumas cidades do Mato Grosso, comerciantes locais aceitam Bitcoins. Em Recife, o Shopping Paço Alfândega que quer se tornar, até 2018, o primeiro centro de compras do Brasil a aceitar a Bitcoin em todas as suas operações.

 

“Toda transação é muito simples e legal. Ninguém está sonegando imposto, por exemplo. Temos dificuldade de adoção do sistema por problemas tecnológicos. Há um novo conceito. Não há um dono, tudo é feito de forma conjunta, no desenvolvimento em rede. É uma nova linguagem que está sendo criada, uma nova forma de comercialização. Já estão sendo criadas criptomoedas locais. Isso permite desenvolver microecnomias. Já existem moedas sociais, mas, assim como as moedas fiduciárias, elas estão vinculadas a um comando central A criptomoeda é um passo além”, afirma Muller.

 

Na BierTeria, Marcolino deu o segundo passo: adquiriu a CloudWalk, uma plataforma na nuvem que faz o papel da máquina para pagamentos com cartões. Neste caso, para pagar com Bitcoins. O terceiro passo será a criação do seu sistema de e-commerce, onde o cliente vai poder comprar cerveja pelo chat, sem precisar usar cartão físico.

 

“É tudo muito louco, as pessoas ainda têm muitas dúvidas, mas esse é o mundo que está começando a funcionar”, observa Marcolino que, atualmente, produz mil litros de cerveja na Piedade, cervejaria na Zona Norte do Rio de Janeiro que abriga “ciganos” , ou seja, cervejeiros que não têm local próprio para produção.

 

Inovação

 

Criada em 2015, a BierTeria tem três rótulos: a wit DR (Discussão de Relacionamento); a Stout TPM e a Smoke Beer Fetiche (essas duas últimas premiadas no Concurso Brasileiro de Cervejas 2017, respectivamente, com as medalhas de bronze e prata). Em outubro, chega ao mercado a IPA Sogra – o nome é porque IPAs são amargas.

 

O uso de ingredientes pouco comuns é um dos fatores do sucesso das cervejas da BierTeria. A TPM, por exemplo, leva tiquira, uma aguardente típica do interior do Maranhão que é feita de mandioca. Já a Fetiche, tem na receita cardamomo e pó de fumaça. Assim, observa Marcolino, o uso do Bitcoin segue o espírito da cervejaria na busca pela inovação.

 

Inovação esta que passa pelo próprio desenvolvimento do negócio. Muller explica que criptomoedas, legitimadas a partir do uso em rede que, por sua vez, não têm um controlador, vai mudar a forma como se empreende.

 

“Nós não entendemos como funciona a Internet, demoramos, mas aprendemos a usá-la. A criptomoeda é a mesma coisa. Vai ajudar a estruturar as organizações de outro jeito: em rede, sem centralização. É um primeiro passo em uma mudança que está chegando rápido. O Blockchain vai ser uma nova Internet. Estamos em transição para algo maior do que imaginamos e isso não é para um período muito longe, mas para os próximos cinco anos”, afirma Muller.

                                    

Da mesma forma que Marcolino, Muller se deparou com as novidades que envolvem as criptomoedas e embarcou. No caso dele, seu “portal” foi a área esportiva. Ex-jogador de futsal do Joinville, se formou em Gestão Esportiva pela  Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, em Portugal, onde iniciou sua aproximação com o trabalho em rede. No Mestrado, se deparou com a Ciência de Redes e não parou mais de se envolver com o tema. Muller faz questão de informar que não tem “em absoluto” domínio de TI. E para provar que criptomoedas podem ser entendidas e usadas por todos, ele disponibiliza tudo o que pode sobre o assunto, de forma gratuita, numa série de encontros presenciais e virtuais chamada de Criptojornadas.

 

 

Saiba mais sobre Blockchain:

 

 Para saber mais sobre as Criptojornadas, aqui

 

 

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