A arte de ser fantasma

Imagine que você seja um escritor. Você acabou de colocar o ponto final em um livro que o ocupou por seis meses. Ufa!

Chegou finalmente a noite de autógrafos. E nesse dia de gloria, os holofotes vão para outra pessoa cujo nome está impresso na capa do livro que você escreveu. Como se sentiria se isso acontecesse com você? Bem, se você for um ghost writer, plenamente realizado. Escrever para uma pessoa o livro que ela não consegue fazer, mas quer assinar, é uma profissão. E se aprende na “escola”.

 

 Que o diga Tania Carvalho. A jornalista, há dez anos, é uma escritora fantasma, com muito orgulho. Uma das mais conceituadas desse mercado, diga-se de passagem. São 15 livros assinados por ela, quer dizer, não assinados por ela, até o momento. Ela pode assumir ser uma fantasma, porém, por contrato, jamais pode revelar em quem “encarnou”. Ela vai ensinar todos os detalhes dessa profissão em um curso que ministra a partir do dia 8 de maio, na Estação das Letras, no Rio de Janeiro. 

 

“O ghost writer é incompreendido pelos outros colegas autores. Porém, tudo fica fácil de entender quando se tem em mente que o livro não é meu, é do outro. Aprendi muito como ghost. Uma coisa é escrever sobre uma pessoa, é sua visão sobre alguém. O ghost não tem personalidade. Ele é a outra pessoa”, explica Tania que durante 14 anos trabalhou no departamento de divulgação da TV Globo e, por conta disso, redigiu o perfil de centenas de atores do país.

 

 A jornalista conta que nunca imaginou que um dia iria trabalhar como ghost writer. Na verdade, nunca imaginou que se tornaria escritora de qualquer tipo até ser convidada por um amigo para fazer um livro de gastronomia. Outro amigo a convidou para escrever o perfil da atriz Irene Ravache. A publicação foi escolhida para inaugurar uma então nova coleção, a Aplauso. Tania foi autora de 18 dos seus títulos.

 

E assim, um belo dia, ela foi convidada para se tornar fantasma de alguém. Tânia conta que leva de três a seis meses para fazer um livro. Cada um tem seu valor negociado. Ela brinca dizendo que o preço varia “de acordo com a chatura do cliente”. Já recebeu R$ 40 mil para fazer apenas um. E não aceita projeto de alguém com quem não se identifica ou de quem não gosta.

 

“Você é contratada para ser uma determinada pessoa. Se não quer ser essa pessoa, não aceite o trabalho. Um ghost writer tem que ser paciente e saber domar o seu ego. E para se manter no mercado, tem que se vender. Sem, porém, jamais revelar, nem para o melhor amigo, para quem assinou um livro”, comenta.

 

SA: Então, como um ghost prova que escreveu vários livros?

TC: Você não prova. Pode dizer que escreveu quantos livros quiser. Porém, se mentir, pode estar certo que, um dia, vão descobrir.

 

Dicas de “sobrevivência” como essa também fazem parte do curso. O mais importante, porém, é exercitar o método de trabalho que consiste, basicamente, em pesquisar e escrever. O sucesso de um "livro fantasma", segundo a escritora, depende diretamente da qualidade do seu primeiro capítulo.

 

O ghost writer geralmente é chamado para escrever (auto) biografias que, na definição de Tania, são “conversas ao pé do ouvido que se transformam em livro”. A missão do fantasma é ouvir, ouvir, ouvir e fazer da voz do outro a linguagem do livro. Ou seja, não há “receita”: pessoas diferentes, livros diferentes.

 

“Nos primeiros encontros, a pessoa geralmente chega com o discurso preparado porque quer contar sua história direitinho. É só lá para o quinto encontro que a conversa começa a fluir de verdade. Por isso, esse tipo de livro é demorado. É preciso tirar o melhor de cada pessoa. Quanto mais histórias curiosas você souber, mais saboroso ficará o livro. E não importa em que momento ou em que contexto você ficou sabendo de uma história curiosa. Você vai guardá-la para usar onde couber, no melhor momento”, explica.

 

Aos 64 anos, Tania acha que está mais do que na hora de passar seus conhecimentos adiante, sem medo de concorrência. Ela quer mais é ver muitos fantasmas vagando por ai.

 

“Conto minha história para incentivar mais pessoas a tentar fazer livros como esses. Muita gente não sabe que existe a figura do ghost writer e conhecimento é para ser compartilhado. Muita gente tem vontade de ter seu livro e não sabe que nós existimos. Quanto mais gente estiver atuando, melhor para todos”, afirma.

 

Faça o teste e veja se você está apto a ser um fantasma. Responda:

Você....

 

Se acha importante .

Tem muitas opiniões

Não é uma metamorfose ambulante

Tem olhar crítico.

Acredita que tempo é dinheiro.

Tem um estilo.

Acha que parece autoajuda a frase “olhar pelo buraco da fechadura da alma das pessoas”.

Não se interessa por relações aprofundadas.

Acha que atos falhos não existem

Não tem interesse pela vida dos outros.

Não sente empatia.

 

Conte quantas dessas frases você marcou, clique aqui e veja a avaliação de Tania.

 

Exemplo de péssimo livro fantasma:                                                                “3.096 Dias”, de Natascha Kampush, que relata os dias em que ficou em um cativeiro após ser sequestrada, em Strasshof an der Nordbahn, na Áustria, quando tinha 10 anos.

 

Exemplo de excelente livro fantasma:

“Life by Keith Richards”, biografia do guitarrista dos Rolling Stones que começa relatando de forma engraçada sua prisão por porte de drogas em um carro                                                                                                                     

 

 

 

 

 

 

 

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