Luz na França

A paulistana Luz Ribeiro, de 28 anos, foi a vencedora da terceira edição do Slam BR – Campeonato Brasileiro de Poesia Falada, cuja final foi disputada no último dia 18 de dezembro, no Itaú Cultural, em São Paulo.  A vitória lhe garantiu a vaga de representante brasileira na Copa do Mundo de Slam, a ser disputada em maio de 2017, em Paris, a capital francesa. Atriz, poeta e compositora, Luz foi a primeira mulher a vencer a competição nacional.

 

 

Slams são grupos de artistas de uma mesma região que participam de batalhas de poesia falada. Cada poema inédito deve ter, no máximo, três minutos e é apresentado sem acompanhamento musical. O veredicto é dado por um júri popular formado por cinco pessoas escolhidas aleatoriamente. Existem cerca de 500 comunidades slams no mundo, sendo 30 no Brasil, com representação em todo o território nacional. Esse movimento cultural começou na década de 1980, nos Estados Unidos. No Brasil, chegou em 2008 e, desde então, vem se espalhando pelo país.

 

 

Luz preparou oito poemas para o campeonato de 2016. Usou apenas cinco e venceu com “Lembra”. Ela participa da competição desde 2012. Até então, sua melhor colocação tinha sido no ano passado, quando chegou à final, sem porém, passar para a fase semifinal. “Minha preparação foi estar sempre presente na cena poética, frequentar polos culturais diversos, vários saraus. Como sempre estou em movimento, minha poesia está sempre mudando”, contou ela que representou no campeonato o Slam Franco da Rocha, mas também é MC do Slam do 13 e DJ do Slam das Minas.

 

 

Nascida e criada na periferia do Jardim Souza, na Zona Sul de São Paulo, Luz, cujo nome de batismo é Luciana, é formada em Pedagogia e Educação Física. Foi em casa, com a família, que aprendeu a amar a poesia: “Minha mãe sempre compôs, minha irmã sempre escreveu, mas ambas pararam e eu, simplesmente, não  consigo não prosseguir”, afirmou.

 

 

Este ano, 31 poetas participaram da competição, organizada pela sua também idealizadora, Roberta Estrela D'Alva, integrante da companhia de teatro e hip hop Núcleo Bartolomeu de Depoimentos. Luz contou que não se considerava favorita. Admitiu, porém, que havia uma expectativa em torno dela pelo fato de estar há tanto tempo participando dos slams.

 

 

SA: O que considerou o mais difícil de enfrentar, ao longo da competição?

LR: O mais difícil foi vencer minha própria insegurança. Cresci não me achando boa, não me achando certa, não me pertencendo, não cabendo nas coisas. Então, o mais difícil era pensar: “você vai conseguir, você pode”. Por ser mulher, negra, pobre e bissexual, todos esses fatores fizeram  com que eu  fosse subjugada a vida inteira. Por vários  momentos cheguei a acreditar que fosse menos por isso. Hoje cada uma dessas palavras me torna mais forte e maior.

 

 

Na competição deste ano, mulheres dominaram a fase final, mas nem sempre foi assim. Quando Luz começou, quase não havia presença feminina nas batalhas. O movimento, no seu início, tinha presença majoritariamente masculina, segundo ela, porque as batalhas eram realizadas em bares frequentados principalmente por homens e porque “culturalmente a mulher não é direcionada a participar de competições”.

 

 

A poeta contou que, no início, não se sentia propriamente discriminada por ser mulher. Porém, seu trabalho, por ser “mais lírico”, não agradava, ou “não era o que o público queria ouvir”. 

 

 

“Conforme fui participando mais de slams fui reconhecendo o lugar onde eu morava e, ao fazer isso, pude falar sobre isso. Fui me reconhecendo enquanto mulher negra periférica e meus textos ficaram com cunho social maior e começaram a ser mais bem quistos no slam. Hoje, não vejo dificuldade de participar de batalhas por questão de gênero. As meninas têm versos tão potentes quanto os caras”, observou.

 

 

Para Luz, a vitória representou um coroamento da sua “gana de querer ter as coisas”. Ela encara como “algo precioso” poder representar o Brasil na França. E disse que espera “não fazer nada menos do que o melhor” que sabe fazer para subir mais uma vez no lugar mais alto do pódio, um lugar  onde, na sua opinião, “é difícil de ver mulheres negras”.

 

 

E será mais uma vez frequentando slams e saraus que ela vai se preparar para a Copa do Mundo. Nesses eventos, ela vai apresentar suas novas produções para, como disse, “colocar a poesia na rua” para treiná-la.

 

 

Luz, que tem como guru o poeta Thiago Peixoto, acredita que o cenário atual da poesia no Brasil é um movimento “com capacidade de total expansão”.  Na sua opinião, “os slams e saraus carregam uma potência de fazer com que adolescentes e jovens conheçam e escrevam  poesias”.

 

 

SA: Acredita que a vitória vai alterar muito sua rotina?

LR: Espero que sim, que eu tenha mais visibilidade e tenha, com isso, mais possibilidade de publicar livros. Também componho canções e tenho buscado parcerias para colocar minhas músicas na rua. Se isso, porém, não acontecer, mudando ou não minha rotina, a poesia vai continuar a ser feita.

 

 

Dica de Leitura de Luz Ribeiro:

 

- Homem invisível , de Ralph Ellison

 

- Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus

 

- A hora da Estrela, de Clarice Lispector

 

 

Poetas que inspiram Luz Ribeiro:

Elizandra Souza, Mel Duarte, Manoel de Barros, Luiza Romão e Mari Felix.

 

Conheça mais sobre o Slam Franco da Rocha

 

Conheça mais sobre o Slam do 13 

 

Conheça mais sobre o Slam das Minas


Conheça mais sobre o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos

 

 

 

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