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Álbum de estreia do saxofonista Roger Marza é inspirado pelos sons da natureza

Um mergulho meditativo na natureza em improvisações livres em defesa do meio ambiente. Este é o espírito de "Alma da Terra", o CD de estreia do saxofonista e jornalista Roger Marza, nome artístico de Roger Marzochi. O trabalho conta com 11 improvisações livres, com influência do jazz, inspiradas pelos sons de baleias, golfinhos, pássaros, água corrente, cigarras e sons de pesquisas científicas sobre os mistérios do Universo.


"É louvável a iniciativa de Roger Marza de criar esta seleção de faixas musicais que revelam conversas de instrumentos musicais com sons de animais, de elementos da natureza, da Terra, de Marte. Nas conversas entre seu sax, sua flauta e esses sons, o músico utiliza procedimentos variados de improvisação livre, mediante os quais integra o seu universo particular àqueles das fontes sonoras que recolheu no universo, em seu mais amplo sentido", diz o pianista Fábio Caramuru, autor de obras memoráveis como os discos "Ecomúsica – Aves" e "Ecomúsica – Conversa de um Piano com a Fauna Brasileira", nas quais sons da natureza dialogam com a sua arte plenamente.


A maioria das paisagens sonoras foi coletada por pesquisadores de instituições como o Laboratório de Acústica e Meio Ambiente Ambiente (Lacmam), do Departamento de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), como é o caso das improvisações "JubArtezz" e "Conversando com Pássaros"; e do Observatório Atacama Large Millimeter Submillimeter Array (Alma), do Chile, como a música que dá nome ao álbum "Alma da Terra".


Outros sons foram usados dos arquivos da Organização Não-Governamental (ONG) Ocean Sound, da qual Marza também é um de seus membros, como "So Whale", "Water Soul" e "Limiar", todas inéditas. Sons como de cigarras, água corrente e maritacas foram gravadas pelo músico, seja na mangueira que há ao fundo de seu prédio, no qual há grande quantidade de passarinhos, seja no Parque Villa Lobos, em São Paulo. Lá, inclusive, foi gravada a música "Healing Trees" e também os sons de cigarras na inédita "Symbiosis" e "Cigarras em Marte", que conta ainda com os primeiros sons de Marte captados neste ano pela sonda Perseverance, da Agência Espacial Americana (Nasa).


O processo de gravação ocorreu entre dezembro de 2020 a abril de 2021 da forma mais simples possível. Buscando driblar as limitações impostas pela pandemia do novo coronavírus, o músico fez quase todo o processo em casa. Primeiro, Marza editou em trilhas os sons da natureza. A partir dessa base, ele improvisou livremente buscando a energia do momento. O som do sax foi captado pelo celular do músico, sendo que as trilhas foram unidas em um software gratuito, para depois serem trabalhadas no Estúdio Damata, do professor de yoga e músico Daniel Braga Lima. A capa do CD é uma mandala da professora de yoga, artista e tatuadora Cristiane Zerbini (Kiki Zerbini).


O trabalho tem duas vertentes principais: em primeiro lugar, há uma influência da meditação, proveniente de experiências musicais de Marza com o projeto Tambores Flow, que une música e meditação, de práticas de yoga com Daniel Lima e Kiki Zerbini; segundo, porque em 2018, o músico conheceu o trabalho de artistas-cientistas como Hosana Celeste, Nicolau Centola e Tania Fraga, que lhe inspiraram não apenas reportagens sobre a fusão de arte e ciência, mas também abriram uma nova perspectiva artística para o músico.

Marza também se inspirou no trabalho do pianista Fábio Caramuru, que ouviu todas as improvisações de "Alma da Terra" antes do lançamento.


"Todos os músicos que anseiam pela marca da criatividade deveriam prestar maior atenção a todos sons que os cercam. Tanto a natureza quanto o cotidiano urbano oferecem uma infinidade de materiais sonoros a serem explorados, extremamente ricos para o desenvolvimento de criações que têm o potencial de se tornarem instigantes", afirma Caramuru.


Paisagens Sonoras das Improvisações


01 – So Whale: sax alto ao som de baleias azul e cachalote dos bancos de dados da ONG Ocean Sound.

02 – Water Soul: sax alto ao som de baleias jubarte, cachalote e golfinho pintado do Atlântico dos bancos de dados da ONG Ocean Sound.

03 – Jabartezz: sax alto com sons de baleia jubarte captados pelo Laboratório de Acústica e Meio Ambiente da USP em 2018 em Ilhéus, na Bahia.

04 – Limiar: sax alto, garrafa d'água, flauta de bambu com sons de golfinho nariz de garrafa, golfinho pintado do Atlântico e Baleia Franca do banco de dados da ONG Ocean Sound.

05 – Healing Tress: sax alto, pau de chuva com sons de pássaros e folhas da floresta do Parque Villa Lobos, em São Paulo, gravado em dezembro de 2020.

06 – Symbiosis: sax alto ao som de cigarras gravadas no Parque Villa Lobos, em São Paulo, em fevereiro de 2021.

07 – H2O: sax alto ao som de água corrente sendo despejada em uma garrafa d'água.

08 – Conversando com Pássaros: sax alto ao som de pássaros gravados pelo Laboratório de Acústica e Meio Ambiente da USP em 24 de agosto de 2018, entre 6h e 6h15, na área de fronteira de fazenda da Indústria Nucleares do Brasil (INB), em Resende (RJ), em área de reflorestamento na divisa com o Parque Nacional de Itatiaia.

09 – Angry Maritacas: sax alto com sons de maritacas na mangueira no quintal do prédio do músico, em São Paulo, em fevereiro de 2021.

10 – Cigarras em Marte: sax alto ao som do rover Perseverance, da Nasa, captados de Marte e sons de cigarras do Parque Villa Lobos, em São Paulo, em fevereiro de 2021.

11 – Alma da Terra: sax alto com sons de pesquisas científicas do Observatório Atacama Large Millimeter Submillimeter Array (Alma), do Chile. Sons enviados ao artista pelo Departamento de Comunicação do Observatório Alma.


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Publicado originalmente em Plurale

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